O GPMI: A aposta chinesa para derrubar o domínio de HDMI e USB

Quem acompanha o mercado de tecnologia sabe que os padrões de conectividade são praticamente um “feudo” de empresas ocidentais há décadas. HDMI e USB são onipresentes: conectam nossas TVs, monitores, celulares, videogames, câmeras, fones, tudo. E cada cabo vendido, cada dispositivo compatível, garante uma fatia de royalties a um punhado de gigantes que controlam esses consórcios.

Só que tem novidade quente no front: um grupo de empresas chinesas, incluindo nomes de peso como Huawei, TCL e Hisense, decidiu que está na hora de mudar esse jogo. Eles criaram um novo padrão chamado General Purpose Media Interface, ou simplesmente GPMI — um cabo universal que promete integrar vídeo, áudio, dados e energia em um único fio, com desempenho muito superior ao que temos hoje.

O que o GPMI promete?

Lançado em abril de 2025 (ainda em fase de pré-comercialização), o GPMI impressiona nos números: até 192 Gbps de largura de banda (quatro vezes mais que o HDMI 2.1, limitado a 48 Gbps) e 480W de entrega de potência (o dobro do USB-PD atual, que chega a 240W).

Em vez de precisar de um cabo HDMI para a TV, outro USB para dados ou energia, e mais um para o carregador, tudo se resolve em um só. Imagine conectar seu notebook numa TV gigante, transferir arquivos pesados e ainda carregar tudo em alta velocidade — com um único cabo. Essa é a ideia.

O modelo de licenciamento que muda o jogo

Mas o mais ousado é o modelo de licenciamento: totalmente gratuito para fabricantes. Hoje, empresas que produzem aparelhos compatíveis com HDMI ou USB pagam caro — não só anuidades (em torno de 10 mil dólares ou mais) como também royalties por unidade vendida. Isso encarece o produto final.

Com o GPMI sendo gratuito, fabricantes economizam essas taxas e podem repassar parte dessa redução ao consumidor ou investir em novos recursos. Para nós, significa potencial para produtos mais baratos ou mais sofisticados. Para as empresas ocidentais que lucram pesado com royalties? Um desafio enorme.

Duas versões para usos diferentes

Para facilitar a adoção, o GPMI será oferecido em dois formatos:

  • Type-C, compatível com portas USB-C (o que deve ajudar muito na transição, já que USB-C virou padrão em notebooks, tablets e celulares).
  • Type-B, mais robusto, com largura de banda e entrega de energia ainda maiores, pensado para smart TVs topo de linha e estações de trabalho pesadas.

É uma estratégia inteligente: garante compatibilidade com o que já existe e, ao mesmo tempo, mira em aplicações que exigem mais desempenho.

Geopolítica e estratégia

Claro, nada disso é só sobre tecnologia. Assim como no 5G, onde a China investiu pesado para se tornar dona de um terço das patentes essenciais, o GPMI é uma jogada geopolítica. É um jeito de reduzir a dependência de padrões controlados pelo Ocidente e ganhar influência nas futuras bases da infraestrutura digital global.

Para a China, quanto mais países e fabricantes adotarem o GPMI, mais difícil será para os consórcios ocidentais manterem seu monopólio. E menos dependência tecnológica eles terão de empresas americanas, japonesas ou europeias.

Os desafios pela frente

Não dá para fingir que isso será fácil. HDMI e USB estão profundamente integrados em tudo. Mudar exige tempo, investimento, convencimento de fabricantes e consumidores — e ainda vai ter toda a questão política. Muitos governos podem se recusar a adotar um padrão “made in China” por questões de segurança ou pura rivalidade estratégica.

Mas a compatibilidade com USB-C dá ao GPMI uma boa carta na manga. Onde já existe USB-C, a mudança pode ser mais natural.

Quando chega ao mercado?

Por enquanto, nada de comprar cabos ou dispositivos com GPMI na loja da esquina. O padrão foi apresentado oficialmente, mas está em fase pré-comercial. Não há data anunciada para começar a chegar aos consumidores.

Mas o recado foi dado: se os consórcios ocidentais estavam confortáveis cobrando royalties gordos por HDMI e USB, agora têm um concorrente de respeito no retrovisor — e com um modelo gratuito que pode bagunçar o tabuleiro.

Texto por Alexandre Augustus

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